Testes em Animais
Como Substituir os Animais nos Testes de Segurança de Produtos Cosméticos
O filósofo inglês Jeremy Bentham, em 1789, no cap. XVII de seu livro, Uma Introdução aos Princípios da Moral e da Legislação, descreveu:
“(...) Que outro fator poderia demarcar a linha divisória que distingue os homens de outros animais? Seria a faculdade de raciocinar, ou talvez a de falar? (...) O problema não consiste em saber se os animais podem raciocinar; tampouco interessa se falam ou não; o verdadeiro problema é: podem eles sofrer?”1
Os experimentos com animais são testes realizados a fim de produzir conhecimento científico útil aos seres humanos. Muitos produtos são testados em vários estágios do seu desenvolvimento do produto com o objetivo de oferecer segurança aos seres humanos.2
Para a avaliação da toxicidade de uma substância ou de um produto, na maioria das vezes, utiliza-se o modelo animal. Entretanto, a participação de animais na pesquisa tem sido razão de diversas discussões em função do grande número necessário e do sofrimento causado, principalmente em relação aos estudos de toxicidade aguda. Existe uma tendência mundial para reavaliar a utilização de animais nos experimentos, concretizada a partir de um programa denominado de 3Rs (Reduction, Refinement, Replacement), que objetiva, além de diminuir o número de animais, minimizar a dor e o desconforto, e buscar alternativas para a substituição dos testes in vivo.3
A indústria de cosméticos está um pouco à frente na questão de testes que substituam completamente os animais, uma vez que existem no mercado experimentos validados para irritação e lesão cutânea e ocular.4
Apesar desse tipo de iniciativa fazer parte da filosofia de algumas indústrias de produtos de beleza, no Brasil não existe nenhuma lei sobre o uso de animais nesses testes. A União Europeia, entretanto, aprovou o banimento da realização dos testes de cosméticos em animais e exigiu que as indústrias os eliminassem por completo até 2009. Talvez por isso, na Europa, o desenvolvimento de produtos cosméticos seja a única área que mostra uma redução significativa no uso de animais.4
Os Testes em Animais Mais Comuns
Teste de Draize de Irritação Ocular – Este teste objetiva avaliar o grau de irritabilidade ocular das substâncias e produtos. Para a realização do Teste de Draize, geralmente, utiliza-se coelhos, os quais são colocados em uma estrutura que mantém suas cabeças imobilizadas e as substâncias em teste são colocadas em seus olhos. Os pesquisadores aguardam algumas horas, até alguns dias, para avaliar a irritabilidade das substâncias testadas analisando a aparência dos olhos dos coelhos.5
Teste de Draize de Irritação Dérmica – A metodologia preconiza a utilização de coelhos albinos, com a pele tricotomizada; o teste é realizado na pele intacta e na pele após abrasão. São utilizados, no mínimo, seis coelhos, com peso corpóreo acima de 2,0 kg, área utilizada de aproximadamente 6,0 cm2, sendo a substância-teste aplicada em quantidade de 0,5 ml. As áreas de aplicação são recobertas com gaze fixada com fita adesiva durante 24 horas, depois é verificado se há a formação de eritema e/ou edema, sobre as áreas.1,2
Testes Fotoalergênico e Fototoxicidade – Ambos os testes são realizados em cobaias albinas utilizando radiação ultravioleta (UV). No teste fotoalergênico, as cobaias são expostas diariamente, durante 3 semanas à radiação e, após período de 14 dias, são expostas a mais uma exposição. O procedimento seguinte é a avaliação da reação alérgica. Já os testes de fototoxicidade, na maioria das vezes realizados somente com matérias primas, expõem a pele à matéria prima teste e em seguida às radiações UVA e UVB.6
Citotoxicidade ou Teste CL 50 ou Teste DL 50 – Neste teste avalia-se a segurança da inalação, ingestão ou injeção, através da determinação da concentração letal (CL50). Para isso, os animais são expostos à substância em determinada concentração. Em seguida, são medidas as taxas de mortalidade.7
Potencial Teratogênico - Animais prenhes são expostos ao composto teste e analisados o desempenho reprodutivo, o desenvolvimento do embrião e o desenvolvimento pós-natal do animal.8
Acneigênese – Cada produto a ser testado deve ser aplicado sobre um dos condutos auditivos externos de coelhos, durante 5 dias consecutivos, por duas semanas, enquanto o outro conduto deve ser o controle. No 14° dia, as regiões são retiradas com auxílio de bisturi para serem confeccionadas as lâminas para análise histológica.2
Teste de sensibilização da pele - São realizadas aplicações tópicas da menor dose não irritante por um período de 3 semanas (fase de indução). Após um período de repouso, procede-se à aplicação tópica da maior dose não irritante (fase de desafio). As reações são graduadas segundo escala específica, com a finalidade de avaliar o potencial de sensibilização.9
Experiências In Vitro: Uma Alternativa para Substituir os Testes em Animais
A ideia de ensaios alternativos é muito mais abrangente do que a substituição do uso de animais, incluindo também a questão da redução e refinamento na utilização dos mesmos 3R’s, o qual foi definido por William Russell e Rex Burch, em 1959, no livro Principles of Human Experimental Technique. Os 3 R’s que representam o refinamento, redução e substituição (Refine, Reduction e Replacement) têm como estratégia uma pesquisa racional minimizando o uso de animais e o seu sofrimento e estresse, sem comprometer a qualidade do trabalho científico.10
Muitos procedimentos bioquímicos envolvendo tecido animal podem ser adequadamente experimentados em cultura de tecidos. Em outros métodos in vitro, particularmente em toxicologia, podem ser utilizados microrganismos, cultura de células, substituindo o uso de animais e oferecendo excelente preparação para futuras pesquisas humanas.11
Exibição dos Métodos Alternativos e Métodos Propostos
A tabela abaixo demonstra os testes que são realizados em animais e que já apresentam metodologia validada para a substituição ou para o refinamento e redução do uso de animais. Além de elencar os testes realizados em animais que, embora apresentem métodos alternativos, não são validados.12
Métodos Alternativos Validados |
Métodos Alternativos Não-Validados |
Métodos Substitutivos |
Irritação ocular |
Irritação cutânea/ Corrosão |
Toxicidade por repetição da dose |
Penetração cutânea |
Toxicocinética |
Mutagenicidade e genotoxicidade |
Toxicidade reprodutiva |
Fototoxicidade |
Carcinogenicidade |
Métodos de Refinamento e Redução |
Toxicidade Aguda |
Sensibilização cutânea |
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A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (ANVISA), através do Guia Para Avaliação de Segurança de Produtos Cosméticos, demonstra vários modelos, para avaliação do risco irritativo.
Modelos Experimentais Substitutos ao Modelo Animal
Avaliação do potencial de irritação ocular |
Conjunto de métodos in vitro que incluem: HET-CAM, BCOP, Citotoxicidade pela difusão em gel de agarose, Citotoxicidade pelo método do Vermelho Neutro, Citotoxicidade pelo método do MTT, RBC. Agrupam-se informações que oferecem subsídios para garantir a segurança do produto a nível ocular |
Avaliação do potencial de irritação cutânea |
Realiza-se através do teste de corrosividade com modelo de pele reconstituída, este modelo já é considerado uma metodologia validada. |
Avaliação do potencial fototóxico |
O teste de fototoxicidade é realizado através da metodologia 3T3 NRU. É definido como uma resposta tóxica clara depois da primeira exposição da célula com agentes químicos, e posterior exposição à irradiação. Embora não seja considerado como metodologia in vitro, contribui para a redução do número de animais de laboratório. |
CONCLUSÃO
A avaliação da segurança de produtos cosméticos é imprescindível para evitar reações adversas, como por exemplo, irritação da pele, vermelhidão, queimaduras, hipersensibilidade, entre outras. Devido ao fato dos testes em animais para avaliar a segurança de produtos cosméticos estarem cada vez mais sendo questionados, pois causam desconforto e sofrimento para o animal, buscam-se alternativas para a substituição dos testes in vivo.
Os testes in vitro são promissores e importantes para a substituição dos modelos animais para a avaliação da segurança de produtos cosméticos. Porém, tais testes ainda não substituem completamente a experimentação animal. Mesmo assim, as tendências demonstram que a completa substituição dos testes envolvendo animais pelos testes in vitro se realizará a curto prazo.
Referência
1. Raymundo, M. M.; Goldim J. R. Ética da pesquisa em modelos animais. Bioética 2002, v. 10, n. 1, p.31-44.
2. Chorilli, M.; Tamascia, P.; Rossim, C.; Salgado, H.R.N. Ensaios biológicos para avaliação de segurança de produtos cosméticos. Rev Ciênc Farm Básica Apl.,2009;30(1):10-21.
3. Cazarin, Karen Cristine Ceroni; Corrêa, Cristiana Leslie; Zambrone, Flávio Ailton Duque. Reduction, refinement and replacement of animal use in toxicity testing: an overview. RBCF, Rev. bras. ciênc. farm.;40(3):289-299, jul.-set. 2004.
4. Cerqueira, N. Indústria adere a métodos alternativos. Cienc. Cult., São Paulo, v. 60, n. 2, 2008.
5. Staub, I et al. Determination of the biological reactivity of ketoconazole in shampoo: draize eye test and cytotoxity test. Rev Bras Cienc Farm, São Paulo, v 43, n 2, June 2007.
6. Chorilli M., Scarpa M. V., Leonardi G. R., Franco Y. O. Toxicologia dos Cosméticos. Lat. Am. J. Pharm. 26 (1): 144-54 (2007).
7. Romanowski P; Schueller R. Fundamentals of cosmetic product safety testing. Cosmetics & Toiletries, v.111, p.79-86, 1996.
8. Hermann Grinfeld. What effects can be expected of prenatal ethanol exposure in pregnant mice and their offspring? Einstein. 2004; 2(3):187-92.
9. Brasil. Agência Nacional de Vigilância Sanitária. Guia para avaliação de segurança de produtos cosméticos. 2003. Disponível em: http://www.anvisa.gov.br.
10. Flecknell P. Replacement, reduction and refinement. Comparative Biology Centre, Medical School, University of Newcastle upon UK-Tyne. ALTEX. 2002;19(2):73-8.
11. Aymoré, C. F. T. A utilização de animais na pesquisa científica, envolendo questões éticas e normativas. Raízes Jurídicas Curitiba, v. 4, n. 1, jan/jun. 2008.
12. Oborska, Anna. Alternatives to animal testing: a review of trends and perspectives. Cosmectic & Toletries, v. 124, n. 8, August 2009, p. 42-48. |